Para fazer concorrência a uma marca top de café, cientistas brasileiros desenvolveram um novo tipo de grão. O novo pó será sintetizado organicamente, tendo como base quirera digerida por passarinhos. Longe de ser uma promessa para o futuro, a novidade já pode ser encontrada em lojas de ponta nas duas mais caras capitais do mundo, Londres e Tóquio. Com o sucesso da empreitada, cogita-se inclusive torná-la bebida oficial das próximas Olimpíadas.
(Nada mais justo. Pois, diferentemente do anabolizante, o adubo resiste a testes anti-dopping. E como quando tem Olimpíada só passa bosta na TV, por que não assistir os atletas com cafezinho à altura?)
Population, sob filtro democrático: "o povo enquanto cidadão". Na verdade, a palavra, entre outras coisas, significa ao mesmo tempo " quantidade de indivíduos de uma espécie em um dado ambiente", "conjunto dos internos em um presídio" e "habitantes de um lugar". Misturada com "disturb", chacoalhada na forma de um trocadilho verbovocovisual, dá hino punk? Selinho pra colar na mochila? Não sei. Mas também não acho que quem manda é o cliente.
terça-feira, 24 de maio de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Renault Clio e o novo apelo do popular
Dois amigos vão andando pelas ruas, conversando. A rua já tem aquela cara de background de novela (cores chapadas, luz cristalina). São sempre os mesmos dois atores que estão ali; as transformações acontecem como mudanças de figurino. A lógica da propaganda é a seguinte: cada coisa que o cara diz é contrariada pela transformação a que ele é submetido logo e seguida. Por exemplo, "a coisa mais ridícula é andar de patins". De repente eles aparecem, os dois amigos, vestidos como patinadores. A transformação é "mágica" e muito rápida, acontece do nada mesmo. Essa mesma sequência segue, pautada pelos assuntos comentados pelo rapaz. Dentre os quais "trabalhar em empresa" e "casar". Quando é chegado o "casar", o amigo como que cai num buraco. Logo em seguida, sobe por detrás (como um boneco de pimbolim) uma mulher vestida de noiva. Imediatamente ele também se transforma em noivo.
O ponto final das transformações, claro, é quando aparece um Renault Clio. Nesse momento todo o exterior some, estamos dentro do Clio. É aí que o cara fala algo como "você é tudo pra mim, querida" e a mulher olha com uma cara desconfiada. No corte entre a "externa" e a"interna", uma voz em off comenta algo do tipo: "você vai se contradizer sempre. Esse carro é um popular que não é popular, experimente".
O cara que vendeu essa ideia para o diretor de marketing da Renault não precisou dizer muito mais do que "a Renault precisa investir na sua linha de carros populares, mas manter o padrão importado que é a razão pela qual nossos clientes nos escolhem. Por isso a gente tem que desfazer a aura de pobreza do carro popular. Para tanto, a gente precisa mostrar pros recalcitrantes que eles já fazem opções popularescas, mesmo que eles não saibam ( ou não queiram admitir). Ao mesmo tempo, temos que garantir que esse nosso popular não é como os outros."
Mas isso é só o começo da história...
O que caracteriza essa propaganda é a generalização total da relatividade das coisas. Ela parte do pressuposto de que a noção cínica de que opiniões e crenças não contam é uma lei geral da vida contemporânea. Ou seja, segundo essa propaganda, todos precisam viver desavisadamente, aceitar como verdadeiro o que aparece, mas sempre com o olho nas mudanças que desmentem a verdade daquilo em que se acreditou. É essa ideia que esse comercial quer estabelecer como geral, apesar de ter público-alvo certo.
Para fazer isso formalmente, toda a "cenografia" do reclame ganha algo de artificial e a lógica é sempre a de denunciar essa aparência como aparência. A propaganda não diz "compre o Clio"; não diz "Clio, elegância e conforto ao seu alcance". Ela diz que os ideais de elegância e conforto em que você acredita são relativos, sempre substituídos por outros conforme chega um novo produto (na verdade, diz algo mais grave, comentado a seguir). Ela sabe que você sabe disso. E, assim, apelando para a sua experiência como consumidor, te vende, com atitude de comerciante franco, a mesma ideia de sempre: a de que possa realizar seus desejos, que no entanto você sabe serem, a rigor, irrealizaveis.
Como ja se comentou sobre a história da propaganda no Brasil, isso é um desvirtuamento do v-effekt brechtiano, que na autodenûncia do teatro (ou melhor, do drama) como aparência, queria levar o espectador a se defrontar com as antinomias sociais naturalizadas pela ideologia. Nesse caso, no entanto, o fato de todo horizonte de valoração ser relativo não leva a entender por que as coisas são assim, nem a destrinçar os conflitos que sustentam essa inconsciência. A propanganda, descreditando tudo, inclusive seu produto, leva a uma aceitação da inconsistência de tudo e à lógica do mal menor.
Ora, isso é tão radical, que a tranformação mágica do reclame engolfa não só as bobeiras adolecentes, como também toda a paisagem e as estruturas de uma pessoa. O tempo, ali, tudo destrói; não apenas as opiniões do moleque bobão. Ele leva os ditos, as gírias, as roupas, o amigo, o próprio mundo embora. E deixa no lugar apenas a mesma pessoa, sempre identica a si mesma e tão mais invulnerável e cabível nas tranformações quanto mais ela possa reagir às trasnformações com o gesto mesmo de aceitá-las (ou de sofrê-las sem percebê-las).
Aparentemente instalando o cara no seu lugar definitivo, o interior confortável do Clio, ele deixa entrever que até mesmo a aquisição automotiva e seu casamento são frágeis. Afinal, o que o rapaz diz à mulher é do mesmo teor de baboseira segura de si que ele dizia ao amigo. Por outro lado, na lógica do comercial, a única tranformação real que ele sofre é aquela em que câmera e atores mudam de posição. Isto é, só dentro do carro ele é visto de outra perspectiva (ele jamais se vê, embora o Clio tenha retrovisores como opcional). Uma posição em que, supostamente, ele está à cavaleiro das mudanças, com a mão na direção. Exatamente por isso, os votos dirigidos à mulher não são contrariados por nenhuma sequência. Nesse sentido, se todas as crenças se equivalem diante da marcha louca do mundo, o gesto de estabelecer como definitivo isso ou "aclillo" é a única débil força de que alguém pode dispôr. A aceitação de que é no mundo movediço que se vive, equipada com uma razão distanciada que manda sobreviver às interpéries e garantir as benesses individuais - essas são os paradoxais pontos firmes do mundo permanentemente "revolucionado".
Ora, mesmo levando a sério a perspectiva do reclame, é óbvio que isso é falso. Afinal, ali, a visão das coisas como relativas é colocada como contrapeso, como dura lição iniciática, a qual, cumprida, cunduz a um mundo de liberdade e irrestrito gozo dos produtos que estão ao alcance de todos. Acontece que nem todos estão tendo que fazer essa dolorosíssima ginástica para viver bem. Pelo contrário. Para muita gente, adaptar-se à mudança significa apenas dispôr de espírito de abertura para escolher essa ou aquela mercadoria, as quais se contradizem nos valores encampados (nada mais grave do que isso). E justamente esse lugar de poder - o daquele que não tem seu mundo reduzido à pó, mas balança indulgentemente com a barcaça - está e não está presente no comercial. Ele está nas próprias câmeras, que filtram o que é e o que não é transformação real. Um lugar cujo simulacro vicário é o interior do Clio, o mesmo que o rapaz, conformado, aceita ocupar com alegrias e juras de mentira.
Ou seja, o motorista do Clio sabe que não está na posição de usufruto e gozo tranquilo de quem recebe uma mercadoria de bandeja. Sabe também que tem gente que está. Sabe além disso que isso não é uma possibilidade para milhares de pessoas. Ainda assim, mesmo sabendo que a mercadoria não é a resolução dos problemas do mundo e sim seu agravamento; mesmo sabendo que confortar-se com aquilo é contribuir com a merda toda; mesmo sabendo que compensando tudo isso há apesar sua alegria momentânea, pois os custos disso irão destruir o frágil lugar de repouso que o consumo constitui, mesmo assim ele embarca nessa sob a lógica do mal menor. Ter um Clio equivale, portanto, a se identificar sem se identificar com estes que, em um mundo desgovernado (ou mal governado pela lógica amoral da necessidade de criar valor), têm um mínimo controle de seu entorno e de si mesmo. Isso, por sua vez, só é possível quando a instabilidade do mundo se tornou tão grande, que mesmo o lugar mais estável nesse mundo sofre de descrédito.
Em suma, se as desgraças de todos os dias tornam impossível a alegria até mesmo para quem possui todas as condições para usufruí-las, então não há um lugar sólido de mando nesse mundo. O que há, é uma imagem de supremacia, a qual deve ser perseguida a todo custo. Sendo verdade e mentira ao mesmo tempo, é essa crença popular (profundamente popular, Villon puro) que constitui o mecanismo profundo desse comercial.
Sim, "esse popular não é como os outros". Quem tem o Clio é o vencedor sendo de partida o perdedor, como aliás seria todo mundo.
É essa falsa generalização da lógica da redução de danos - que esconde o dano permanente da sociedade dividida em classes - que está na base do comercial. Aquele que deixa os remorsos, as lembranças, as roupas, o amigo e a mulher para trás, escolhe o que tem chance de sobreviver e só com isso se identifica, ademais ciente de que isso também pode se dissolver e o caminho abrir-se a novas conquistas, esse é o que merece viver e usufruir. Só para ele é que o prazer falso, contabilizados em inúmeros deseperos, torna-se substancial na sua falta de substancialidade. Quem não precisa passar por isso, não sabe o quanto isso custa. Quem jamais terá chance de vencer nesse jogo, também não.
A falta e a instabilidade do produto, do cliente e do mundo, são positivadas como razão para aceitar a alegria que se sabe de antemão instável e falha. Quando aparentemente nenhum negociante domina mais a integridade das tendências de mercado (o que está longe de ser verdade, pensando que as corporações garantem esse mando com as suas fusões e manobras financeiras), esse excelente surfista do caos é o único que se torna objeto de admiração. Só com isso alguém se pode verdadeiramente se identificar. Quem manda na vida sem sofrer seus empuxos não é o herói; é heroi quem é mandado, mas não por alguém, pelo simples fato de ficar abandonado ao deus-dará.
Como essa ingrata posição de popular é que é proposta para os pobres e a classe média; como essa atitude, ao mesmo tempo, se torna cada vez mais difícil de ser sustentada e supostamente é a única possível para todo mundo, justamente essa disposição do impotente potente é a que se torna mais apelativa para o consumidor e transforma-se em material para o comercial. Popular aqui é isso, portanto. Sinônimo de guerreiro, mas não do que há de óbvio na figura do guerreiro grosseiro e arraigado em crenças. É o portador da pura disposição à disputa. É aquele que comporta a inabalável intenção de estar por cima da carniça.
Esse é o popular que, sendo igual ao imemorial povo, ao garantir sua sobrevivência por dar de ombros à ruína dos outros, de si mesmo, e do mundo, o eleva à categoria de raça superior do futuro. Esse homem - que só o é por aceitar o abalo de todas as categorias que antigamente afirmavam o homem - é que é digno de um Clio.
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