Para fazer concorrência a uma marca top de café, cientistas brasileiros desenvolveram um novo tipo de grão. O novo pó será sintetizado organicamente, tendo como base quirera digerida por passarinhos. Longe de ser uma promessa para o futuro, a novidade já pode ser encontrada em lojas de ponta nas duas mais caras capitais do mundo, Londres e Tóquio. Com o sucesso da empreitada, cogita-se inclusive torná-la bebida oficial das próximas Olimpíadas.
(Nada mais justo. Pois, diferentemente do anabolizante, o adubo resiste a testes anti-dopping. E como quando tem Olimpíada só passa bosta na TV, por que não assistir os atletas com cafezinho à altura?)
Disturb the pop-you-nation
Population, sob filtro democrático: "o povo enquanto cidadão". Na verdade, a palavra, entre outras coisas, significa ao mesmo tempo " quantidade de indivíduos de uma espécie em um dado ambiente", "conjunto dos internos em um presídio" e "habitantes de um lugar". Misturada com "disturb", chacoalhada na forma de um trocadilho verbovocovisual, dá hino punk? Selinho pra colar na mochila? Não sei. Mas também não acho que quem manda é o cliente.
terça-feira, 24 de maio de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Renault Clio e o novo apelo do popular
Dois amigos vão andando pelas ruas, conversando. A rua já tem aquela cara de background de novela (cores chapadas, luz cristalina). São sempre os mesmos dois atores que estão ali; as transformações acontecem como mudanças de figurino. A lógica da propaganda é a seguinte: cada coisa que o cara diz é contrariada pela transformação a que ele é submetido logo e seguida. Por exemplo, "a coisa mais ridícula é andar de patins". De repente eles aparecem, os dois amigos, vestidos como patinadores. A transformação é "mágica" e muito rápida, acontece do nada mesmo. Essa mesma sequência segue, pautada pelos assuntos comentados pelo rapaz. Dentre os quais "trabalhar em empresa" e "casar". Quando é chegado o "casar", o amigo como que cai num buraco. Logo em seguida, sobe por detrás (como um boneco de pimbolim) uma mulher vestida de noiva. Imediatamente ele também se transforma em noivo.
O ponto final das transformações, claro, é quando aparece um Renault Clio. Nesse momento todo o exterior some, estamos dentro do Clio. É aí que o cara fala algo como "você é tudo pra mim, querida" e a mulher olha com uma cara desconfiada. No corte entre a "externa" e a"interna", uma voz em off comenta algo do tipo: "você vai se contradizer sempre. Esse carro é um popular que não é popular, experimente".
O cara que vendeu essa ideia para o diretor de marketing da Renault não precisou dizer muito mais do que "a Renault precisa investir na sua linha de carros populares, mas manter o padrão importado que é a razão pela qual nossos clientes nos escolhem. Por isso a gente tem que desfazer a aura de pobreza do carro popular. Para tanto, a gente precisa mostrar pros recalcitrantes que eles já fazem opções popularescas, mesmo que eles não saibam ( ou não queiram admitir). Ao mesmo tempo, temos que garantir que esse nosso popular não é como os outros."
Mas isso é só o começo da história...
O que caracteriza essa propaganda é a generalização total da relatividade das coisas. Ela parte do pressuposto de que a noção cínica de que opiniões e crenças não contam é uma lei geral da vida contemporânea. Ou seja, segundo essa propaganda, todos precisam viver desavisadamente, aceitar como verdadeiro o que aparece, mas sempre com o olho nas mudanças que desmentem a verdade daquilo em que se acreditou. É essa ideia que esse comercial quer estabelecer como geral, apesar de ter público-alvo certo.
Para fazer isso formalmente, toda a "cenografia" do reclame ganha algo de artificial e a lógica é sempre a de denunciar essa aparência como aparência. A propaganda não diz "compre o Clio"; não diz "Clio, elegância e conforto ao seu alcance". Ela diz que os ideais de elegância e conforto em que você acredita são relativos, sempre substituídos por outros conforme chega um novo produto (na verdade, diz algo mais grave, comentado a seguir). Ela sabe que você sabe disso. E, assim, apelando para a sua experiência como consumidor, te vende, com atitude de comerciante franco, a mesma ideia de sempre: a de que possa realizar seus desejos, que no entanto você sabe serem, a rigor, irrealizaveis.
Como ja se comentou sobre a história da propaganda no Brasil, isso é um desvirtuamento do v-effekt brechtiano, que na autodenûncia do teatro (ou melhor, do drama) como aparência, queria levar o espectador a se defrontar com as antinomias sociais naturalizadas pela ideologia. Nesse caso, no entanto, o fato de todo horizonte de valoração ser relativo não leva a entender por que as coisas são assim, nem a destrinçar os conflitos que sustentam essa inconsciência. A propanganda, descreditando tudo, inclusive seu produto, leva a uma aceitação da inconsistência de tudo e à lógica do mal menor.
Ora, isso é tão radical, que a tranformação mágica do reclame engolfa não só as bobeiras adolecentes, como também toda a paisagem e as estruturas de uma pessoa. O tempo, ali, tudo destrói; não apenas as opiniões do moleque bobão. Ele leva os ditos, as gírias, as roupas, o amigo, o próprio mundo embora. E deixa no lugar apenas a mesma pessoa, sempre identica a si mesma e tão mais invulnerável e cabível nas tranformações quanto mais ela possa reagir às trasnformações com o gesto mesmo de aceitá-las (ou de sofrê-las sem percebê-las).
Aparentemente instalando o cara no seu lugar definitivo, o interior confortável do Clio, ele deixa entrever que até mesmo a aquisição automotiva e seu casamento são frágeis. Afinal, o que o rapaz diz à mulher é do mesmo teor de baboseira segura de si que ele dizia ao amigo. Por outro lado, na lógica do comercial, a única tranformação real que ele sofre é aquela em que câmera e atores mudam de posição. Isto é, só dentro do carro ele é visto de outra perspectiva (ele jamais se vê, embora o Clio tenha retrovisores como opcional). Uma posição em que, supostamente, ele está à cavaleiro das mudanças, com a mão na direção. Exatamente por isso, os votos dirigidos à mulher não são contrariados por nenhuma sequência. Nesse sentido, se todas as crenças se equivalem diante da marcha louca do mundo, o gesto de estabelecer como definitivo isso ou "aclillo" é a única débil força de que alguém pode dispôr. A aceitação de que é no mundo movediço que se vive, equipada com uma razão distanciada que manda sobreviver às interpéries e garantir as benesses individuais - essas são os paradoxais pontos firmes do mundo permanentemente "revolucionado".
Ora, mesmo levando a sério a perspectiva do reclame, é óbvio que isso é falso. Afinal, ali, a visão das coisas como relativas é colocada como contrapeso, como dura lição iniciática, a qual, cumprida, cunduz a um mundo de liberdade e irrestrito gozo dos produtos que estão ao alcance de todos. Acontece que nem todos estão tendo que fazer essa dolorosíssima ginástica para viver bem. Pelo contrário. Para muita gente, adaptar-se à mudança significa apenas dispôr de espírito de abertura para escolher essa ou aquela mercadoria, as quais se contradizem nos valores encampados (nada mais grave do que isso). E justamente esse lugar de poder - o daquele que não tem seu mundo reduzido à pó, mas balança indulgentemente com a barcaça - está e não está presente no comercial. Ele está nas próprias câmeras, que filtram o que é e o que não é transformação real. Um lugar cujo simulacro vicário é o interior do Clio, o mesmo que o rapaz, conformado, aceita ocupar com alegrias e juras de mentira.
Ou seja, o motorista do Clio sabe que não está na posição de usufruto e gozo tranquilo de quem recebe uma mercadoria de bandeja. Sabe também que tem gente que está. Sabe além disso que isso não é uma possibilidade para milhares de pessoas. Ainda assim, mesmo sabendo que a mercadoria não é a resolução dos problemas do mundo e sim seu agravamento; mesmo sabendo que confortar-se com aquilo é contribuir com a merda toda; mesmo sabendo que compensando tudo isso há apesar sua alegria momentânea, pois os custos disso irão destruir o frágil lugar de repouso que o consumo constitui, mesmo assim ele embarca nessa sob a lógica do mal menor. Ter um Clio equivale, portanto, a se identificar sem se identificar com estes que, em um mundo desgovernado (ou mal governado pela lógica amoral da necessidade de criar valor), têm um mínimo controle de seu entorno e de si mesmo. Isso, por sua vez, só é possível quando a instabilidade do mundo se tornou tão grande, que mesmo o lugar mais estável nesse mundo sofre de descrédito.
Em suma, se as desgraças de todos os dias tornam impossível a alegria até mesmo para quem possui todas as condições para usufruí-las, então não há um lugar sólido de mando nesse mundo. O que há, é uma imagem de supremacia, a qual deve ser perseguida a todo custo. Sendo verdade e mentira ao mesmo tempo, é essa crença popular (profundamente popular, Villon puro) que constitui o mecanismo profundo desse comercial.
Sim, "esse popular não é como os outros". Quem tem o Clio é o vencedor sendo de partida o perdedor, como aliás seria todo mundo.
É essa falsa generalização da lógica da redução de danos - que esconde o dano permanente da sociedade dividida em classes - que está na base do comercial. Aquele que deixa os remorsos, as lembranças, as roupas, o amigo e a mulher para trás, escolhe o que tem chance de sobreviver e só com isso se identifica, ademais ciente de que isso também pode se dissolver e o caminho abrir-se a novas conquistas, esse é o que merece viver e usufruir. Só para ele é que o prazer falso, contabilizados em inúmeros deseperos, torna-se substancial na sua falta de substancialidade. Quem não precisa passar por isso, não sabe o quanto isso custa. Quem jamais terá chance de vencer nesse jogo, também não.
A falta e a instabilidade do produto, do cliente e do mundo, são positivadas como razão para aceitar a alegria que se sabe de antemão instável e falha. Quando aparentemente nenhum negociante domina mais a integridade das tendências de mercado (o que está longe de ser verdade, pensando que as corporações garantem esse mando com as suas fusões e manobras financeiras), esse excelente surfista do caos é o único que se torna objeto de admiração. Só com isso alguém se pode verdadeiramente se identificar. Quem manda na vida sem sofrer seus empuxos não é o herói; é heroi quem é mandado, mas não por alguém, pelo simples fato de ficar abandonado ao deus-dará.
Como essa ingrata posição de popular é que é proposta para os pobres e a classe média; como essa atitude, ao mesmo tempo, se torna cada vez mais difícil de ser sustentada e supostamente é a única possível para todo mundo, justamente essa disposição do impotente potente é a que se torna mais apelativa para o consumidor e transforma-se em material para o comercial. Popular aqui é isso, portanto. Sinônimo de guerreiro, mas não do que há de óbvio na figura do guerreiro grosseiro e arraigado em crenças. É o portador da pura disposição à disputa. É aquele que comporta a inabalável intenção de estar por cima da carniça.
Esse é o popular que, sendo igual ao imemorial povo, ao garantir sua sobrevivência por dar de ombros à ruína dos outros, de si mesmo, e do mundo, o eleva à categoria de raça superior do futuro. Esse homem - que só o é por aceitar o abalo de todas as categorias que antigamente afirmavam o homem - é que é digno de um Clio.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Nuke'em good - a bomba atômica e as palavras como goma de mascar.
Acabo de descobrir coisas incríveis sobre a entidade secreta, o Computador. E um pouco sobre a vida também.
Por exemplo, quando a gente formata o HD, não apagou tudo que está lá. Afinal alguém poderia recuperar nossos dados, usando um certo programa. Então, existe um outro programa que, sim, pode apagar tudo e não dar chances para espertinhos...
Agora, sabem como chama esse programa? Dariks Boot and Nuke!
E lá vem o detalhe sórdido sobre a vida...
"Nuke" quer dizer o quê? Vem de nuclear, que vem de "nuclear bomb". Era uma palavra nova na década de 50, usada para falar de ataques com bomba atômica, evento cuja memória mais recente, era a do lançamento da primeira, sobre Hiroshima. Os aviadores diziam Yeah, nuke'em good!, pensando é claro no que a torcida, nas noites de boxe, gritava em coro, bem na hora em que o adversário já estava quase beijando a lona: Yeah, knock'im down!. E na época da Guerra do Vietnam, a expressão já era carne de vaca. Embora oficialmente a MAD já garantisse que o tabu não poderia ser rompido (a não ser na linguagem).
Conclusão? No ano 2010, esse tal de Derrick, supondo que seja uma pessoa (mas pode não ser), inventou o tal programa. Depois disso, passou um tempo pensando em como criar um nome que transformasse o seu, de nascimento, em marca de seu produto. E foi assim que Derrick transformou-se em Darik...
Quanto tempo será que esse mesmo cara passou pensando na gravidade do que sua marca naturalizava? Terá pensado sequer no significado da palavra "Nuke"? Quer dizer, estou assumindo que ele parou pra pensar. Na verdade, o mais provavel, mesmo, é que ele tenha feito isso automaticamente. Afinal, a gente já não não graceja, reduzindo o nome das coisas a palavras incisivas e fáceis de memorizar?
Imagina lá, onde a economia solicita há mais de 100 anos que as pessoas brinquem assim?
Não que isso fosse desejável, mas vinte anos de contracultura não bastaram para que a bomba fosse esquecida. Ou melhor, a pressão contra seu uso real, feita pelo progresso do pós-guerra e incorporando a oposição da contracultura, possibilitou que ela migrasse como uma obcenidade para a linguagem. E 55 anos mais tarde, um idiota qualquer já poderia se servir dela (não a bomba, a piadinha bem de mau gosto) para dar notoriedade a seu produto.
Claro, não podemos culpá-lo. Muito provavelmente, antes que ele tivesse de exterminar concorrentes no mercado, ele foi um dos que passavam as noites tentando fechear um jogo de videogame cujo nome pegava carona na memória já não tão recente.
Esse jogo, o primeiro em que o ângulo de observação do jogador confundia-se com o do soldado assassino, chamava-se Duke Nukem.
Por exemplo, quando a gente formata o HD, não apagou tudo que está lá. Afinal alguém poderia recuperar nossos dados, usando um certo programa. Então, existe um outro programa que, sim, pode apagar tudo e não dar chances para espertinhos...
Agora, sabem como chama esse programa? Dariks Boot and Nuke!
E lá vem o detalhe sórdido sobre a vida...
"Nuke" quer dizer o quê? Vem de nuclear, que vem de "nuclear bomb". Era uma palavra nova na década de 50, usada para falar de ataques com bomba atômica, evento cuja memória mais recente, era a do lançamento da primeira, sobre Hiroshima. Os aviadores diziam Yeah, nuke'em good!, pensando é claro no que a torcida, nas noites de boxe, gritava em coro, bem na hora em que o adversário já estava quase beijando a lona: Yeah, knock'im down!. E na época da Guerra do Vietnam, a expressão já era carne de vaca. Embora oficialmente a MAD já garantisse que o tabu não poderia ser rompido (a não ser na linguagem).
Conclusão? No ano 2010, esse tal de Derrick, supondo que seja uma pessoa (mas pode não ser), inventou o tal programa. Depois disso, passou um tempo pensando em como criar um nome que transformasse o seu, de nascimento, em marca de seu produto. E foi assim que Derrick transformou-se em Darik...
Quanto tempo será que esse mesmo cara passou pensando na gravidade do que sua marca naturalizava? Terá pensado sequer no significado da palavra "Nuke"? Quer dizer, estou assumindo que ele parou pra pensar. Na verdade, o mais provavel, mesmo, é que ele tenha feito isso automaticamente. Afinal, a gente já não não graceja, reduzindo o nome das coisas a palavras incisivas e fáceis de memorizar?
Imagina lá, onde a economia solicita há mais de 100 anos que as pessoas brinquem assim?
Não que isso fosse desejável, mas vinte anos de contracultura não bastaram para que a bomba fosse esquecida. Ou melhor, a pressão contra seu uso real, feita pelo progresso do pós-guerra e incorporando a oposição da contracultura, possibilitou que ela migrasse como uma obcenidade para a linguagem. E 55 anos mais tarde, um idiota qualquer já poderia se servir dela (não a bomba, a piadinha bem de mau gosto) para dar notoriedade a seu produto.
Claro, não podemos culpá-lo. Muito provavelmente, antes que ele tivesse de exterminar concorrentes no mercado, ele foi um dos que passavam as noites tentando fechear um jogo de videogame cujo nome pegava carona na memória já não tão recente.
Esse jogo, o primeiro em que o ângulo de observação do jogador confundia-se com o do soldado assassino, chamava-se Duke Nukem.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
O fantasma da pequena área
Este texto surgiu como comentário à notícia sobre a mais recente briga de Kaká e Juca Kfouri. Segue abaixo o link
http://g.br.esportes.yahoo.com/futebol/copa/blog/daredacao/post/Kak-sai-do-tom-e-ataca-Juca-Kfouri?urn=fbintl,250361#mwpphu-container
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1.Futebol, política e entretenimento
Futebol e religião se misturam, sim, no Brasil. E, nessa mistura, são mais políticos do que as coisas públicas por aqui. Se política quer dizer "a maneira como a população trata assuntos de interesse público", no futebol seus desejos estão muito mais bem representados do que nas urnas. Inclusive com base na história recente. Há restos de demanda popular no Corinthians; é possível ler o processo de ascensão social dos imigrantes italianos no Palmeiras; a Portuguesa tornou-se um time menor ao mesmo tempo em que o sobrenome português tornou-se um detalhe irrelevante nas certidões de nascimento; todo mundo no "interior" do Brasil é flamenguista justamente porque o Flamengo é o time do povo só no Rio, estado-síntese do espírito malandro nacional. E, finalmente, o elitismo democrático sãopaulino equivale à aura cosmopolita do estado carro-chefe - a voraz locomotiva - do país.
Não dá pra ignorar esse tipo de "coincidência" entre a "tradição" dos times e a maneira como cada brasileiro se compreende. São marcas do processo histórico. É disso que se constituiu aos poucos a firme relação entre o jogo e as identidades no Brasil. A ignorância sobre a função simbólica do futebol torna-se portanto um problema do ponto de vista da compreensão do país. Uma problema porque outras diversões chegam à rodo com a internacionalização do mercado e desempenham funções semelhantes; porque hoje falar de futebol não significa necessariamente não ser preconceituoso e compreender bem a cultura popular. E, finalmente, porque o próprio futebol já não é o que era antes; já não está mais tão evidentemente ligado à vida prática, e, nessa falta de vínculos, serve melhor à indústria do que a quem quer entender o futebol.
Ou seja, se, hoje em dia, muito pouca gente torce pelo seu time por identificar-se conscientemente com ele, esse é um processo induzido. Um processo que acarreta também a dificildade de compreendê-lo como fenômeno real. Quanto mais o futebol se torna um espetáculo gigantesco; quanto mais ele produz trilhões e segmenta-se em mil formas de fruição, menos o ritual dos campos tem a ver com a vida real das pessoas que, no entanto, sustentam-no com um esforço de dedicação afetiva jamais visto.
Justamente isso é que permite dizer que, sim, o futebol é político, mas com a ressalva de que, no futebol como na política, as decisões que compõem as verdadeiras regras do jogo estão cada vez mais além da consciência das pessoas, a verdadeira base de sustentação do espetáculo.
2. Sob o viés de quem veste a camisa
Pois bem. Compreendido sob o viés do torcedor (ou fã - fanático - do futebol), esse processo coincide exatamente com o da transformação do "futebol-arte" em jogo multimilionário, globalizado e já não tão baseado no talento. Choram todos os que veem partidas medícores durante o ano inteiro: nenhum jogador hoje em dia tem o talento que tinha um Pelé. De fato, isso é uma verdade. Coerentemente, os torcedores já não são como antigamente: conhecem as regras, têm camisetas, vão aos estádios no ônibus da organizada, mas entendem quase nada das minúcias da "grande arte".
Pouco se pode apagar desse fato. E justamente por isso as queixas dos fãs (servidão queixosa e insuspeitada) são tão inócuas quanto o senso de realidade dos comentaristas que manda valorizar o jogo médio atual (e assim conservam seus empregos).
Entretanto, por mais que o futebol tenha se tranformado em uma diversão razoável à custo de tornar-se incompreensível, sobrevive ainda no ato de torcer justamente a mesma parte de idealização que caracteriza as queixas dos antigos pelo fim dos "tempos áureos". No fundo, é como se a casca de truculência e encantamento ficasse e o próprio futebol se esvaísse. Ora, isso só faz provar o quanto mesmo o menos encarniçado torcedor não pensa nas coisas que sempre sustentaram-lhe o alto valor na cultura brasileira. Discute-se superficialmente as partidas; comenta-se com tédio a política; a religião parece uma prática arcaica, e o espetáculo continua.
Claro. Pensar sobre futebol contraria a própria essência do costume de "torcer", com a qual, para gostar desse esporte ao mesmo tempo democrático e de tudo ou nada, cada simpatizante precisa se comprometer. Afinal, foi para estar afinado com a vida no país que seu "espírito" procurou o futebol. E ele não há de abandonar o achado tão cedo.
Não é culpa dele. O poder dessa crença, em si um poder profundamente político, é grande demais. Ao empolgar-se com futebol, o torcedor carrega para dentro de si essa magiquinha que reforça o vínculo instintivo e misterioso entre a beleza dos chapéus do Pelé e o espírito profundo do Brasil, cuja imagem mais perfeita está naquele passado de tolerância, labilidade e desrecalque que fez a glória da cultura brasileira como um todo. Por sua vez, essa mesma imagem, através da inconsciência e do ardor amador do torcedor contemporâneo, sustenta ilusões preciosas para a manutenção do status quo no presente. E isso tanto mais quanto menos se encontra nas ruas um rastro sequer do belo país.
Nesse sentido, não é mesmo permitido a nenhum torcedor tocar no passado do futebol. A todo preço deve ficar incólume o tempo em que meninos de rua, curtidos na cultura local, transformavam-se do dia para a noite em semi-deuses do esporte. Sim, no fundo sempre houve e sempre haverá um anjo dormindo no espírto de cada grande craque do passado. E todos sabem que a substância divina que anima os anjos é coisa secreta, inacessível a olhos e escrutínio humanos. Quando convém à ordem divina, no máximo Deus manda descer seus emissários à pequena área. E ali, tocando de súbito o ombro de uma jovem promessa, Ele faz irromper uma dessas jogadas que, hoje, não deixam de trazer um quê irremediável de saudade dos velhos tempos.
Inútil sugerir que em tal mistificação entra tanto de religião laica quanto entra nos gordos dízimos que Kaká envia todo mês para a Universal do Reino de Deus. Isso não parece chamar a atenção de ninguém.
Exceção feita ao público que, muito embora não veja graça no jogo, involuntariamente acompanha um pouquinho de futebol, já que, afinal de contas, da graça e da desgraça divina ninguém consegue se esconder. Pois bem. Por todas essas razões arrisco dizer que somente a esse público recalcitrante está dado enxergar como de fato funciona a religião futeboleira lá dentro do coração do torcedor.
E mais: juro de pé junto que justamente por isso é que Juca Kfouri, o anacoreta do futebol, persegue o impulso supostamente desespecializador de Kaká (aliás, seus comentários automaticamente lançam contra o jogador os mais ferozes leões da mídia eletrônica impessoal, arena onde nenhuma difamação é forte o bastante).
3. Nas trevas do coração do guerreiro
Então, vamos lá. Como se comportam esses 150 milhões de corações?
Bom, exatamente como a religião hoje faz menos, o futebol desvia a suas mais intensas vontades para o além-morte da arena sagrada, o estádio, onde ocorre a disputa pela honra que, na Terra, é impossível não macular. Ou seja, o fã de futebol, exatamente como o crente, nunca é um fã desinteressado. Ele toma parte em apenas uma forma de salvar-se inimiga de todas as outras, mas à brasileira, em esfera imaginária e com duvidoso respeito pluricultural às diferenças. Mesmo ciente de que aquilo não definirá sua vida real, ele se vê bem representado pelo seu proselitismo a cada campeonato. Pois se as brigas frias e diárias da vida não guardam rastro das grandes aventuras que o torcedor planejava quando menino, as dos jogadores preferidos conservam-nas oniricamente.
Mas o movimento entre sonho e vigília é duplo, neste caso. O fato de o torcedor se empenhar na contemplação do rito sem poder abrir mão da distância contemplativa cobra direitos na vida real. Daí porque, mesmo sem saber para que time torcem os que lhe cruzam o caminho (ou quem são exatamente eles), o torcedor decodifica a vida enquanto embate geral entre o bem e o mal, onde guerreiros constituídos segundo tradições diversas estão brigando para cavar suas vitórias tanto quanto ele. E para alcançar tal fim valem tanto as boas obras quanto o arbítrio de Deus.
Em suma, admitido como uma diversão inocente, afirmado como disputa real pela felicidade imaginária, o futebol termina por ratificar a tomada de posição do torcedor na guerra incruenta sobre a qual se sustenta a vida semi-civilizada das camadas médias no Brasil. E nesse processo troca todas as formas modernas de se conceber a sociedade - com suas liberdade e opressões reais - pelas pré-modernas, ligadas às raças, tradições e compromissos culturais.
Brincando um pouco, a luta negra pode ter se estilhaçado em políticas culturalistas que propiciam estratégias a-gregárias e estreitas; o cultivo de tradições familiares pode ter se tornado uma piada no brechó dos Borba, na Vila Madalena; pelo simples motivo de serem os mais recentes imigrantes, os bolivianos são escravizados no Bom Retiro. Ainda assim, o futebol vive de fazer crer que o espírito brasileiro está na ginga do capoeirista; que o sul é um monobloco cultural separatista; e, finalmente, que os bolivianos são os verdadeiros nativos da america latina e, como tais, cativos do poderio eurocêntrico.
Na terra em que brasões e outras insígnias menos arrogantes sempre foram exibidos para encobrir as negociatas e humiliações que as familias emigradas e nativas tiveram de cometer ou sofrer, esse é o verdadeiro espírito heráldico do torcedor.
Em escala modesta... brasileirinha, por assim dizer.
4. O apelo comunitário do futebol - futebol e religião antes de 1960.
Mas se o futebol é como a religião, também a administração do futebol é (e sempre foi) como a das “repartições religiosas” – as igrejinhas e associações espiritualistas. A alucinação diária do torcedor não é sem fundamento. O próprio futebol espraia-se como instituição real. Sem deixar de ser um rito esportivo, mas tornando-se objeto de valor exatamente por isso, este jogo troca trabalho de fé por rendimentos.
Já trocava quando o Brasil ainda era uma feirinha de bairro e ainda troca agora que ele é uma loja de conveniência. Estou falando do dízimo, sim, que os ateus, os católicos e os orientalistas tanto criticam, mas também e principalmente de toda a estrutura de subsistência real da fé que é pressuposto mundano de qualquer atividade religiosa. Aos times de futebol antigos equivalem as irmandades e os terreiros; aos times modernos equivalem as grandes igrejas evagélicas atuais. Algum segredo nisso? Acho que não. Entretanto, a maneira como essa esquisita relação entre espiritualismo e futebol no caso do Kaká enerva a mídia e os torcedores "esclarecidos" tem algo de "secreto". Algo que a história do futebol (e do país) soterrou e que, de repente, vem à tona. O que será isso?
Vamos ao passado, então. E segure-se, coração patriota... Como se vivia a religião no Brasil antes da esmagadora ascensão das igrejas evangélicas? A nossa geração só vai se lembrar disso, lembrando como na infância as igrejinhas de bairro e as sacristias agrupavam o pessoal das redondezas em uma cultura comum. Vestígios dessa verdadeira rede de relações sociais de classe média sobreviviam nas barraquinhas de bingo e de tiro ao alvo das quermesses que hoje se realizam em pátios de igreja só por costume. Em meio às barracas de pipoca e algodão doce, entre uma e outra dentada no pãozinho com carne de panela, sempre aparecia Dna. Marta com uma rifa. E a vizinhança fazia o sinal da cruz esperando que a prenda fosse gorda. Função semelhante, acredito, desempenhavam (e, talvez continuem desempenhando) os terreiros e os sambas em bairros mais pobres, onde a vida religiosa, como no centro, nunca pôde se despregar dos pequenos empreendimentos. Mas como estamos, neste caso, nos anos 80, é claro que tudo isso já tinha a cara de diversão inocente, feita para esposas e crianças. E é claro também que a ela correspondia - como coisa mais séria e viril - o futebol.
Acontece que essa maneira "comunitária" de se viver a religião no Brasil não tem nada de gratuíta. Ela vem do abismo entre a cultura da elite e dos escravos, da separação entre o culto sério e o culto vulgar, do hiato entre a religião santa mantida às claras na capelinha do sinhô e a que sempre esteve imiscuída em negócios de providência miúda. Uma divisão que se tornou definitiva quando a igreja foi cortada dos assuntos públicos, processo que aqui nas nossas bandas foi levado à cabo pelo Marques de Pombal, ainda no século XVIII.
A hora era perfeita. Constatava-se o desenvolvimento do mercado e das camadas médias ligadas à mineração. Constatava-se igualmente que a igreja continuava suprindo essa nova gente de recursos e assim tornava-se mais importante do que a coroa - que só queria saber de derramas e outras extorsões. Ora, feito o desligamento, retirava-se da igreja a capacidade de articular a gente miuda das lavras aos bens de usufruto público que mais e mais ela iria reclamar. Não custa lembrar que a concessão esclarecida vinha depois de outras tentativas de pacificação menos sutis - como o esquartejamento do oligarca que, para pensar melhor, propagava ideais republicanos no Brasil colônia, Tiradentes.
Mas cortando a cabeça da igreja, nem por isso os membros deixavam de funcionar. Noutras palavras, sob a proibição da coroa, a religião como administração comunitária de benesses sobreviveu sob a forma daquilo que até hoje se pode constatar muito presente em Minas Gerais: as irmandades. Em que consistiam as irmandades? Em agregações filiadas santos padroeiros, por sua vez correspondentes a coordenadas "mudanas" como raça, pertencimento local, ofício, etc. A igreja não provia mais os filhos de mascates, tropeiros e mineiradores de escolas, mas a comunidade ainda sobreviva nas trocas de bens menores e outros socorros. Sendo menos neutro, as irmandades eram organizações que de maneira tão pouco declarada como a do Estado - só que nas esferas que o Estado já abandonava - tinham a função de "salvar e abandonar" conforme critérios de identidade e interesse próprios.
Em suma, sob a base comum de crença, dentro da qual os grupos divergiam na interpretação do culto, a religião desenvolvia-se de acordo com as redes de identidades muito complicadas que se desenvolveram neste país multirracial e de contorno de classes pouco claros. E nesse contexto, a cada comemoração, as facções pugnavam em torno da salvação celestial, que, na prática, equivalia à ajuda mútua e a favoritismos. Daí porque, longe de compartilharem a riqueza, sob formas de juízos tão seguros e equânimes quanto o jogo e senso de solidadariedade cristã, as pessoas competiam pelos prêmios que, dependendo da situações, permitiam sobreviver ou desoneravam a renda incerta das lavras de alguns poucos gastos. É óbvio que quem tomasse maior parte nos negócios carolas garimpava às bênçãos mais generosas.
Pois bem. Acontece que a mesmíssima coisa, um século e meio mais tarde, dava-se em torno dos times de futebol de várzea. Alguns devem se lembrar da aura revestindo um tio ou primo que batia uma boa bola. No interior e nos bairros operários de São Paulo isso é muito frequente. Para os netos e bisnetos dessas potestades da várzea local de 1940, esses seres eram criaturas de exceção. Eles superaram as adversidade da má origem e ganharam a vida às custas do talento que Deus lhes deu, blablablá. Um pouco por isso, ainda em 1980, quando o filho nascia, cada família "torcia" para que o moleque fizesse pelo menos 30 embaixadas de olho fechado. Claro. A tal dádiva de Deus tinha um significado muito preciso: o talento do menino há pouco implicava também possibilidades na vida.
As notícias de pobretões furando as condições e chegando a times de vulto internacional eram, obviamente, muito escassas; assim como havia sido enorme, um dia, a distância entre a vendinha do seu Zé e, digamos, o truste dos Rothchild. Noutras palavras, como o capitalismo antigo não era internacional na escala que é, o futebol ficava na pequena escala que sempre ficou enquanto estava dividido como passatempo de grã-finos e cultura popular: como exceção, era caminho de intensa possibilidade de ascensão social (Garrincha, Pelé); como regra, era uma forma de gerir os restos da produção nas camadas médias e baixas. Mesmo no século XX, quando os grandes times começaram a se desenvolver, essa cultura local é que dava sentido ao grande espetáculo ouvido com fervor nos radinhos de pilha. E por isso, acompanhar o rito diário do grande futebol significava reforçar como legítima a outra prática: a das peladas semanais que, se botavam pouquíssima gente pra jogar com Pelé e Rivelino, salvavam muita gente de apuros e, principalmente, condenavam à mendicância e à cadeia um outro tanto.
Ora, é justamente essa base social nada romântica do futebol que sumiu de vista. Não só da consciência do torcedor como também da fachada limpa e apresentável do jogo atual. Neste exato momento, cada homem que veste uma camisa de time de bairro procura a iluminação súbita de seu craque multimilionário, cujos lances mais memoráveis ele tem gravado em cassete para os dias em que a partida televisiva não basta.
E haja campeonatos! Se antes, exatamente como as irmandades, os times de várzea propiciavam ganhos a partir de uma disputa amigável por favores, hoje, o futebol de várzea (tanto quanto o profissional) não rende nada ao cidadão de classe média, rendo migalhas aos pobres e enriquece apenas aos grandes jogadores e aos empregados das sucursais internacionais da mídia (que vivem como cracas no queixo do tubarão). Aliás, exatamente como a igreja só rende mesmo aos pastores (e tanto mais quanto mais ruidosos e politiqueiros sejam e mais malas de dolares possam carregar para a Suíça).
Instalado como passatempo de sinhozinho, o futebol penetrou tanto no Brasil justamente porque, pouco a pouco, tornou-se um jeito de os pobres e a miserável classe média "agregarem valor". Valor aliás arrancado legitimamente de si mesmos (já que tinham e não tinham como sobreviver com um mercado interno tão escasso quanto o que havia no Brasil antes da década de 40).
Era como o carteado. Era como o jogo do bicho. O lugar em que cada pobre diabo "fazia sua fezinha" e às vezes tirava a sorte... média.
Com a modernização, desvalidos em escala mundial os principais valores cívicos que ratificavam o sentimento de pertencimento nacional, essa pré-história do futebol-macumbeiro-jogo-do-bicho-semi-marginal foi obliterada ao mesmo tempo que sua versão clean, espetacular, foi alçada ao estatuto de um verdadeiro cimento de sociabilidade imaginária.
Quer dizer, foi obliterada à despeito, é claro, de continuar acontecendo nos lugares em que a condição de vida é semelhante, sem os ganhos correspondentes...
Nada contra, não fosse o fato de a pelada do fim de semana não salvar mais ninguém da pobreza.
E isso é tão mais triste quando a gente percebe que seu lugar de providência foi tomado pelo terceiro setor e o narcotráfico, e o de despêndio, pelo crediário das Casas Bahia, o mais barulhento dos esfoladores.
5. O ebó moderno de Káká x a fúria independente do torcedor esclarecido
Dito isso, o que tem Kaká a ver com toda a historia?
Pois bem. Marcelinho carioca era crente, muitos jogadores são crentes. Mas quando Kaká - jogador branco, criado no São Paulo e parecido com o boneco Ken - acende uma vela para seja lá qual for sua igreja, ele está mexendo nas regras do futebol esclarecido. Não só nas do espetáculo maroto de todas as noites (cujo horário a Globo determina), como também nas da própria indústria futeboleira.
O caso não chega a ser grave, mas é suspeito. Ronaldinho, com suas noitadas transsex, provocou piadas, mas não conseguiu semelhante façanha.
Pois, diferentemente dele, Kaká não só se presta como imagem (ou "santinho") para um comercial da Nike, como também está trazendo para o seio do futebol contemporâneo uma prática escancaradamente arcaica, duvidosa.
Pra completar, se o país fosse o mesmo, alguns milhões de suas contas bancárias estariam - ou só na imaginação que condiciona e foi roubada dos torcedores estariam - tirando famílias da pobreza. Mas como a religião e o jogo populares já não têm o poder que tinham antigamente, quem leva seu bocado é uma outra indústria que não produz nada além de esperança para os pobres. Essa religião é que o assinante da Placar ataca. Primeiro, porque ela não rende nada a quem já anda a perigos. Segundo, porque a esquisitisse arcaica traz reminiscências da sobremesa cavada a gols pelos mais velhos...
Ora, o poder de choque disso só podia ser muito maior do que o da quebra de qualquer tabu sexual por um jogador excêntrico, já meio gordo e, ademais, menos branco.
Sim, o ebó moderno de Kaká é forte demais. Suas preces e seus milhões correndo para o bolso dos gangsters da salvação fazem com que o público pagante e assinante da ESPN torça o nariz. É o mínimo que o respeitável cidadão poderia fazer, vendo ali, bem diante dos seus olhos, além de uma versão amplificada dos seus sonhos frustrados de menino, aquilo que com muito custo foi reprimido pelos seus ascendentes justamente a fim de que, para seus filhos, o futebol pareça ser isso que parece ser hoje: uma diversão democrática e a laica.
O susto com as demonstrações públicas de fé, nem é preciso dizer, vêm para reprimir qualquer tipo de aproximação entre o passado do futebol e as teatralidades correlatas que os crentes pobres da Universal de Deus fazem em pequena e desesperançada escala.
Coerentemente, o ranço que recai contra Kaká é o ranço de gente que não gosta de ver um costume de pobre invadindo aquela que essa mesma gente cinicamente considera a mais democrática das diversões modernas. As caríssimas camisetas oficiais, o canal de assinatura com cobertura completa, as alas vips, as copas mundiais, bem como a discussão com peritos, existem exatamente para manter bem estabelecida a distância. Não é verdade?
6. K.O., W.O., W/Brasil
Faz sentido. Se o torcedor, hoje, sob a desculpa de cultivar um hábito querido, procura distintivos de classe que o comprovem como um torcedor mais competente, é justamente porque, tanto quanto os menos competentes, ele já não pode tirar a sorte miúda na "caixinha de surpresas". Nem daí, nem do truco,nem do poker, nem da cacheta, nem do bingo.
Em certo nível confuso de sabedoria, todo torcedor o admite. E enxerga no futebol uma dessas forças que magicamente fazem com que a violência instituída se justifique, para que lhe favoreça o livre usufruto do roubo coletivo e lhe pesem menos quaisquer desconfortos de consciência. Tomando a forma de jogo, isso não tem mal nenhum. Ali, em terreno sublimado, cada um pode dizer que quer mesmo é ver os outros chafurdarem na derrota, reservando a si as glórias de ser campeão. É assim que o futebol tem funcionado no Brasil, desde sempre.
O problema, no entanto, começa a aparecer quando a dificuldade de salvar-se da miséria se intensifica a tal ponto que já não se permite ao torcedor confiar apenas em seu amor pelo esporte. Ademais, esse, desde que a indústria fez do futebol um sítio de pequária intensiva, já não proporciona por si só grandes emoções. Ou então, a gente poderia dizer que os sufocos da situação de subemprego e desemprego superam-nas, obrigando o dito cujo a esforços de fanatismo displicente que nem mesmo seu avô compreenderia.
Consequentemente, o amante de futebol, em nome de manter acesa a chama, precisa cada vez mais recobrir-se da aura de exceção com que a propaganda reveste os craques de futebol. Assim, a contemplação imaginarimente participante do espetáculo (leia-se "consumo") torna-se tão mais imperiosa quanto mais seu subtexto obsceno ameaça romper à luz do dia. Justamente por isso é preciso relativizar e repropor o mito antigo, encurtar e ao mesmo tempo distender a distância entre a vida e o gramado; fazer com que cada um, conoisseur ou não, tome parte no campo, leve às ruas as cores do time amado. Esse é o trabalho realizado pelo merchandise, responsável por estender badulaques futebolísticos, sob preços diversos, até ao mais comum dos mortais.
E, ainda assim, quanto mais o torcedor compra gato por lebre, mais a imagem arrojada e bela do passado futebolístico reverte-se no seu contrário, fazendo com que seu caráter de luta por migalhas venha à tona. Em épocas em que o futebol não é uma histeria geral, pode-se, por exemplo, constatar que a preferência por adereços de futebol desponta no peito dos "manos" de cantões novo-ricos de São Paulo: o filho eternamente imaturo e dileto do dono da microempresa, com seu cabelo empastelado de gel, com seus cinco amigos arruaceiros em carro esporte filmado; com a namoradinha, passeando o cachorro enorme em agasalho de tactel. Ele, o contribuinte da caixinha mensal para o society. Ele, o fissurado nas tabelinhas. Ele, a caricatura de homem típico, que, aos domingos, quando não concede aos rapazes ou à família a alegria de sua presença contrariada, frustra a esposa, afundado no sofá para acompanhar quinze campeonatos internacionais simultaneamente (e ter o que falar durante o tempo da semana que não passa trabalhando ou embriagado).
Noutras palavras, a pletora das bandeiras recobre preferencialmente essa diversidade de lumpen-classe-média. Uma espécime, que, não por acaso, mantendo acesa a tradição guerreira, não esconde a disposição de ir às vias de fato nem mesmo quando fala, pois, recém-emerso do abismo, para não cair de novo, pratica a violência vulgar que nos demais toma a forma de assaltos ou de finas ironias. Só neles a camisa veste bem. Não no ricasso, que, dependo da ocasião, esconde estar à par dos resultados de jogos desde 1930. Não no moleque de rua, sobre cujo peito imprimiram um logo da Adidas já meio apagado.
Ora, exatamente por isso, têm razão os saudosos. A imagem do futebol como um todo evoca, não o mais cultuado atleta de todos os tempos, Pelé, mas sim a figura que constitui o maior pesadelo da tal ferina espécime: a dos desempregados que lotam as praças de subúrbio com suas velhas caixinhas de dominó - a inadequação da imagem residindo apenas no fato de que uns, cientes da própria situação, já perderam a voz e outros, na esperança de algum olheiro divino ou de ensurdecer o vizinho, ainda gritam.
7. Epílogo: olho no lance; amém, limália política.
Como se sabe, justificando o imobilismo social como ordem divina, o ascetismo como vida justa, a ignorância como espontaneidade, a contenção do desenolvimento técnico e científico como limite à soberba humana, a religião imiscuia-se à política na Europa, durante o Antigo Regime. O que concebemos hoje como política, portanto, só foi nascendo bem devagar, em meio a inúmeras conceções ao obscurantismo então dominante. Sabe-se também que foi a famigerada burguesia, enquanto classe, uma vez tendo conquistado o poderio econômico, que inventou a primeira estratégia de dominação política baseada no consenso consciente dos dominados: a democracia.
Já por aqui, a despeito de nunca ter havido idade média, e de terem-se constituído burguesia e democracia sui generi, a religião, longe de ser apenas uma protoforma reprimida de política, instalou-se definitivamente como sua prática complementar e estigmatizada, nunca sendo de todo combatida e alijada dos mecanismos de poder. Nessa dinâmica, ela funcionava (e ainda funciona, de maneira direta ou mediada, como no caso do futebol), tanto para suprir a profunda necessidade dos pobres e das classes médias de aderir automaticamente à situação e "se virarem" em seus termos, quanto à necessidade dos ricos de se beneficiarem com a reinvenção permanente do mesmo (tarefa que, frequentemente, não lhes cabe).
Enfim, se é verdade que as coisas têm mudado um pouco neste país, deveríamos também nos perguntar se o fato de a política, desde 2003, estar sendo pautada por demandas e fraseologia populares foi suficente para mudar o quadro geral. Afinal, se as necessidades dos de baixo estivessem sendo realmente provisionadas, então já não seria preciso cultivar, em escala geral, a uma fantasia compensatória, como o jogo e o futebol, certo?
Por mais que se diga o contrário, não é todo mundo se prontifica a lançar-se à competição e ao embrutecimento decorrente só por necessidade de sobrevivência ou possibilidade objetiva de ter sucesso. Mais do que isso: é preciso acreditar que o caminho intimamente escolhido seja desejável para cada um, embora conflituoso com o interesse geral e as partes de si que se deve reprimir para "vencer". Uma vez que jargão, ideologia e justificação de projetos governamentais não coincidem com a mudança efetiva da realidade, é preciso ainda manter intacta uma imagem de conciliação de classes substitutiva, encenada, idealizada. Especialmente quando tudo na vida cultural e política do país pega carona numa promiscuidade tão arriscada quanto eficiente do poder com a pobreza.
No entanto, quando a destruição das condições gerais da vida e a violência desatada são ratificadas pela escolha geral iludida com ganhos pessoais e algumas estatísticas, o aspecto irracional da empreitada fica patente. Como não poderia deixar de ser, da ordem do irracional é também a manifestação favorita da perpetuação do mesmo no Brasil. As esperanças, que eram, ao mesmo tempo, remediadas e frustradas no futebol de várzea antigo de fato sobrevivem na torcida pelo futebol high-performance, mas como um fantasma. E esse sim é que é o seu demoníaco sentido político, inseparável de seu obsceno (porque reprimido) conteúdo religioso .
Encantado com o jogo que já não tem nada de magia, desesperado com o risco de tornar-se um derrotado, é justamente a favor dos dribles que a vida dá na sua consciência de cidadão abandonado e de peça sem valor no mercado de trabalho que o torcedor ainda grita "gol".
http://g.br.esportes.yahoo.com/futebol/copa/blog/daredacao/post/Kak-sai-do-tom-e-ataca-Juca-Kfouri?urn=fbintl,250361#mwpphu-container
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1.Futebol, política e entretenimento
Futebol e religião se misturam, sim, no Brasil. E, nessa mistura, são mais políticos do que as coisas públicas por aqui. Se política quer dizer "a maneira como a população trata assuntos de interesse público", no futebol seus desejos estão muito mais bem representados do que nas urnas. Inclusive com base na história recente. Há restos de demanda popular no Corinthians; é possível ler o processo de ascensão social dos imigrantes italianos no Palmeiras; a Portuguesa tornou-se um time menor ao mesmo tempo em que o sobrenome português tornou-se um detalhe irrelevante nas certidões de nascimento; todo mundo no "interior" do Brasil é flamenguista justamente porque o Flamengo é o time do povo só no Rio, estado-síntese do espírito malandro nacional. E, finalmente, o elitismo democrático sãopaulino equivale à aura cosmopolita do estado carro-chefe - a voraz locomotiva - do país.
Não dá pra ignorar esse tipo de "coincidência" entre a "tradição" dos times e a maneira como cada brasileiro se compreende. São marcas do processo histórico. É disso que se constituiu aos poucos a firme relação entre o jogo e as identidades no Brasil. A ignorância sobre a função simbólica do futebol torna-se portanto um problema do ponto de vista da compreensão do país. Uma problema porque outras diversões chegam à rodo com a internacionalização do mercado e desempenham funções semelhantes; porque hoje falar de futebol não significa necessariamente não ser preconceituoso e compreender bem a cultura popular. E, finalmente, porque o próprio futebol já não é o que era antes; já não está mais tão evidentemente ligado à vida prática, e, nessa falta de vínculos, serve melhor à indústria do que a quem quer entender o futebol.
Ou seja, se, hoje em dia, muito pouca gente torce pelo seu time por identificar-se conscientemente com ele, esse é um processo induzido. Um processo que acarreta também a dificildade de compreendê-lo como fenômeno real. Quanto mais o futebol se torna um espetáculo gigantesco; quanto mais ele produz trilhões e segmenta-se em mil formas de fruição, menos o ritual dos campos tem a ver com a vida real das pessoas que, no entanto, sustentam-no com um esforço de dedicação afetiva jamais visto.
Justamente isso é que permite dizer que, sim, o futebol é político, mas com a ressalva de que, no futebol como na política, as decisões que compõem as verdadeiras regras do jogo estão cada vez mais além da consciência das pessoas, a verdadeira base de sustentação do espetáculo.
2. Sob o viés de quem veste a camisa
Pois bem. Compreendido sob o viés do torcedor (ou fã - fanático - do futebol), esse processo coincide exatamente com o da transformação do "futebol-arte" em jogo multimilionário, globalizado e já não tão baseado no talento. Choram todos os que veem partidas medícores durante o ano inteiro: nenhum jogador hoje em dia tem o talento que tinha um Pelé. De fato, isso é uma verdade. Coerentemente, os torcedores já não são como antigamente: conhecem as regras, têm camisetas, vão aos estádios no ônibus da organizada, mas entendem quase nada das minúcias da "grande arte".
Pouco se pode apagar desse fato. E justamente por isso as queixas dos fãs (servidão queixosa e insuspeitada) são tão inócuas quanto o senso de realidade dos comentaristas que manda valorizar o jogo médio atual (e assim conservam seus empregos).
Entretanto, por mais que o futebol tenha se tranformado em uma diversão razoável à custo de tornar-se incompreensível, sobrevive ainda no ato de torcer justamente a mesma parte de idealização que caracteriza as queixas dos antigos pelo fim dos "tempos áureos". No fundo, é como se a casca de truculência e encantamento ficasse e o próprio futebol se esvaísse. Ora, isso só faz provar o quanto mesmo o menos encarniçado torcedor não pensa nas coisas que sempre sustentaram-lhe o alto valor na cultura brasileira. Discute-se superficialmente as partidas; comenta-se com tédio a política; a religião parece uma prática arcaica, e o espetáculo continua.
Claro. Pensar sobre futebol contraria a própria essência do costume de "torcer", com a qual, para gostar desse esporte ao mesmo tempo democrático e de tudo ou nada, cada simpatizante precisa se comprometer. Afinal, foi para estar afinado com a vida no país que seu "espírito" procurou o futebol. E ele não há de abandonar o achado tão cedo.
Não é culpa dele. O poder dessa crença, em si um poder profundamente político, é grande demais. Ao empolgar-se com futebol, o torcedor carrega para dentro de si essa magiquinha que reforça o vínculo instintivo e misterioso entre a beleza dos chapéus do Pelé e o espírito profundo do Brasil, cuja imagem mais perfeita está naquele passado de tolerância, labilidade e desrecalque que fez a glória da cultura brasileira como um todo. Por sua vez, essa mesma imagem, através da inconsciência e do ardor amador do torcedor contemporâneo, sustenta ilusões preciosas para a manutenção do status quo no presente. E isso tanto mais quanto menos se encontra nas ruas um rastro sequer do belo país.
Nesse sentido, não é mesmo permitido a nenhum torcedor tocar no passado do futebol. A todo preço deve ficar incólume o tempo em que meninos de rua, curtidos na cultura local, transformavam-se do dia para a noite em semi-deuses do esporte. Sim, no fundo sempre houve e sempre haverá um anjo dormindo no espírto de cada grande craque do passado. E todos sabem que a substância divina que anima os anjos é coisa secreta, inacessível a olhos e escrutínio humanos. Quando convém à ordem divina, no máximo Deus manda descer seus emissários à pequena área. E ali, tocando de súbito o ombro de uma jovem promessa, Ele faz irromper uma dessas jogadas que, hoje, não deixam de trazer um quê irremediável de saudade dos velhos tempos.
Inútil sugerir que em tal mistificação entra tanto de religião laica quanto entra nos gordos dízimos que Kaká envia todo mês para a Universal do Reino de Deus. Isso não parece chamar a atenção de ninguém.
Exceção feita ao público que, muito embora não veja graça no jogo, involuntariamente acompanha um pouquinho de futebol, já que, afinal de contas, da graça e da desgraça divina ninguém consegue se esconder. Pois bem. Por todas essas razões arrisco dizer que somente a esse público recalcitrante está dado enxergar como de fato funciona a religião futeboleira lá dentro do coração do torcedor.
E mais: juro de pé junto que justamente por isso é que Juca Kfouri, o anacoreta do futebol, persegue o impulso supostamente desespecializador de Kaká (aliás, seus comentários automaticamente lançam contra o jogador os mais ferozes leões da mídia eletrônica impessoal, arena onde nenhuma difamação é forte o bastante).
3. Nas trevas do coração do guerreiro
Então, vamos lá. Como se comportam esses 150 milhões de corações?
Bom, exatamente como a religião hoje faz menos, o futebol desvia a suas mais intensas vontades para o além-morte da arena sagrada, o estádio, onde ocorre a disputa pela honra que, na Terra, é impossível não macular. Ou seja, o fã de futebol, exatamente como o crente, nunca é um fã desinteressado. Ele toma parte em apenas uma forma de salvar-se inimiga de todas as outras, mas à brasileira, em esfera imaginária e com duvidoso respeito pluricultural às diferenças. Mesmo ciente de que aquilo não definirá sua vida real, ele se vê bem representado pelo seu proselitismo a cada campeonato. Pois se as brigas frias e diárias da vida não guardam rastro das grandes aventuras que o torcedor planejava quando menino, as dos jogadores preferidos conservam-nas oniricamente.
Mas o movimento entre sonho e vigília é duplo, neste caso. O fato de o torcedor se empenhar na contemplação do rito sem poder abrir mão da distância contemplativa cobra direitos na vida real. Daí porque, mesmo sem saber para que time torcem os que lhe cruzam o caminho (ou quem são exatamente eles), o torcedor decodifica a vida enquanto embate geral entre o bem e o mal, onde guerreiros constituídos segundo tradições diversas estão brigando para cavar suas vitórias tanto quanto ele. E para alcançar tal fim valem tanto as boas obras quanto o arbítrio de Deus.
Em suma, admitido como uma diversão inocente, afirmado como disputa real pela felicidade imaginária, o futebol termina por ratificar a tomada de posição do torcedor na guerra incruenta sobre a qual se sustenta a vida semi-civilizada das camadas médias no Brasil. E nesse processo troca todas as formas modernas de se conceber a sociedade - com suas liberdade e opressões reais - pelas pré-modernas, ligadas às raças, tradições e compromissos culturais.
Brincando um pouco, a luta negra pode ter se estilhaçado em políticas culturalistas que propiciam estratégias a-gregárias e estreitas; o cultivo de tradições familiares pode ter se tornado uma piada no brechó dos Borba, na Vila Madalena; pelo simples motivo de serem os mais recentes imigrantes, os bolivianos são escravizados no Bom Retiro. Ainda assim, o futebol vive de fazer crer que o espírito brasileiro está na ginga do capoeirista; que o sul é um monobloco cultural separatista; e, finalmente, que os bolivianos são os verdadeiros nativos da america latina e, como tais, cativos do poderio eurocêntrico.
Na terra em que brasões e outras insígnias menos arrogantes sempre foram exibidos para encobrir as negociatas e humiliações que as familias emigradas e nativas tiveram de cometer ou sofrer, esse é o verdadeiro espírito heráldico do torcedor.
Em escala modesta... brasileirinha, por assim dizer.
4. O apelo comunitário do futebol - futebol e religião antes de 1960.
Mas se o futebol é como a religião, também a administração do futebol é (e sempre foi) como a das “repartições religiosas” – as igrejinhas e associações espiritualistas. A alucinação diária do torcedor não é sem fundamento. O próprio futebol espraia-se como instituição real. Sem deixar de ser um rito esportivo, mas tornando-se objeto de valor exatamente por isso, este jogo troca trabalho de fé por rendimentos.
Já trocava quando o Brasil ainda era uma feirinha de bairro e ainda troca agora que ele é uma loja de conveniência. Estou falando do dízimo, sim, que os ateus, os católicos e os orientalistas tanto criticam, mas também e principalmente de toda a estrutura de subsistência real da fé que é pressuposto mundano de qualquer atividade religiosa. Aos times de futebol antigos equivalem as irmandades e os terreiros; aos times modernos equivalem as grandes igrejas evagélicas atuais. Algum segredo nisso? Acho que não. Entretanto, a maneira como essa esquisita relação entre espiritualismo e futebol no caso do Kaká enerva a mídia e os torcedores "esclarecidos" tem algo de "secreto". Algo que a história do futebol (e do país) soterrou e que, de repente, vem à tona. O que será isso?
Vamos ao passado, então. E segure-se, coração patriota... Como se vivia a religião no Brasil antes da esmagadora ascensão das igrejas evangélicas? A nossa geração só vai se lembrar disso, lembrando como na infância as igrejinhas de bairro e as sacristias agrupavam o pessoal das redondezas em uma cultura comum. Vestígios dessa verdadeira rede de relações sociais de classe média sobreviviam nas barraquinhas de bingo e de tiro ao alvo das quermesses que hoje se realizam em pátios de igreja só por costume. Em meio às barracas de pipoca e algodão doce, entre uma e outra dentada no pãozinho com carne de panela, sempre aparecia Dna. Marta com uma rifa. E a vizinhança fazia o sinal da cruz esperando que a prenda fosse gorda. Função semelhante, acredito, desempenhavam (e, talvez continuem desempenhando) os terreiros e os sambas em bairros mais pobres, onde a vida religiosa, como no centro, nunca pôde se despregar dos pequenos empreendimentos. Mas como estamos, neste caso, nos anos 80, é claro que tudo isso já tinha a cara de diversão inocente, feita para esposas e crianças. E é claro também que a ela correspondia - como coisa mais séria e viril - o futebol.
Acontece que essa maneira "comunitária" de se viver a religião no Brasil não tem nada de gratuíta. Ela vem do abismo entre a cultura da elite e dos escravos, da separação entre o culto sério e o culto vulgar, do hiato entre a religião santa mantida às claras na capelinha do sinhô e a que sempre esteve imiscuída em negócios de providência miúda. Uma divisão que se tornou definitiva quando a igreja foi cortada dos assuntos públicos, processo que aqui nas nossas bandas foi levado à cabo pelo Marques de Pombal, ainda no século XVIII.
A hora era perfeita. Constatava-se o desenvolvimento do mercado e das camadas médias ligadas à mineração. Constatava-se igualmente que a igreja continuava suprindo essa nova gente de recursos e assim tornava-se mais importante do que a coroa - que só queria saber de derramas e outras extorsões. Ora, feito o desligamento, retirava-se da igreja a capacidade de articular a gente miuda das lavras aos bens de usufruto público que mais e mais ela iria reclamar. Não custa lembrar que a concessão esclarecida vinha depois de outras tentativas de pacificação menos sutis - como o esquartejamento do oligarca que, para pensar melhor, propagava ideais republicanos no Brasil colônia, Tiradentes.
Mas cortando a cabeça da igreja, nem por isso os membros deixavam de funcionar. Noutras palavras, sob a proibição da coroa, a religião como administração comunitária de benesses sobreviveu sob a forma daquilo que até hoje se pode constatar muito presente em Minas Gerais: as irmandades. Em que consistiam as irmandades? Em agregações filiadas santos padroeiros, por sua vez correspondentes a coordenadas "mudanas" como raça, pertencimento local, ofício, etc. A igreja não provia mais os filhos de mascates, tropeiros e mineiradores de escolas, mas a comunidade ainda sobreviva nas trocas de bens menores e outros socorros. Sendo menos neutro, as irmandades eram organizações que de maneira tão pouco declarada como a do Estado - só que nas esferas que o Estado já abandonava - tinham a função de "salvar e abandonar" conforme critérios de identidade e interesse próprios.
Em suma, sob a base comum de crença, dentro da qual os grupos divergiam na interpretação do culto, a religião desenvolvia-se de acordo com as redes de identidades muito complicadas que se desenvolveram neste país multirracial e de contorno de classes pouco claros. E nesse contexto, a cada comemoração, as facções pugnavam em torno da salvação celestial, que, na prática, equivalia à ajuda mútua e a favoritismos. Daí porque, longe de compartilharem a riqueza, sob formas de juízos tão seguros e equânimes quanto o jogo e senso de solidadariedade cristã, as pessoas competiam pelos prêmios que, dependendo da situações, permitiam sobreviver ou desoneravam a renda incerta das lavras de alguns poucos gastos. É óbvio que quem tomasse maior parte nos negócios carolas garimpava às bênçãos mais generosas.
Pois bem. Acontece que a mesmíssima coisa, um século e meio mais tarde, dava-se em torno dos times de futebol de várzea. Alguns devem se lembrar da aura revestindo um tio ou primo que batia uma boa bola. No interior e nos bairros operários de São Paulo isso é muito frequente. Para os netos e bisnetos dessas potestades da várzea local de 1940, esses seres eram criaturas de exceção. Eles superaram as adversidade da má origem e ganharam a vida às custas do talento que Deus lhes deu, blablablá. Um pouco por isso, ainda em 1980, quando o filho nascia, cada família "torcia" para que o moleque fizesse pelo menos 30 embaixadas de olho fechado. Claro. A tal dádiva de Deus tinha um significado muito preciso: o talento do menino há pouco implicava também possibilidades na vida.
As notícias de pobretões furando as condições e chegando a times de vulto internacional eram, obviamente, muito escassas; assim como havia sido enorme, um dia, a distância entre a vendinha do seu Zé e, digamos, o truste dos Rothchild. Noutras palavras, como o capitalismo antigo não era internacional na escala que é, o futebol ficava na pequena escala que sempre ficou enquanto estava dividido como passatempo de grã-finos e cultura popular: como exceção, era caminho de intensa possibilidade de ascensão social (Garrincha, Pelé); como regra, era uma forma de gerir os restos da produção nas camadas médias e baixas. Mesmo no século XX, quando os grandes times começaram a se desenvolver, essa cultura local é que dava sentido ao grande espetáculo ouvido com fervor nos radinhos de pilha. E por isso, acompanhar o rito diário do grande futebol significava reforçar como legítima a outra prática: a das peladas semanais que, se botavam pouquíssima gente pra jogar com Pelé e Rivelino, salvavam muita gente de apuros e, principalmente, condenavam à mendicância e à cadeia um outro tanto.
Ora, é justamente essa base social nada romântica do futebol que sumiu de vista. Não só da consciência do torcedor como também da fachada limpa e apresentável do jogo atual. Neste exato momento, cada homem que veste uma camisa de time de bairro procura a iluminação súbita de seu craque multimilionário, cujos lances mais memoráveis ele tem gravado em cassete para os dias em que a partida televisiva não basta.
E haja campeonatos! Se antes, exatamente como as irmandades, os times de várzea propiciavam ganhos a partir de uma disputa amigável por favores, hoje, o futebol de várzea (tanto quanto o profissional) não rende nada ao cidadão de classe média, rendo migalhas aos pobres e enriquece apenas aos grandes jogadores e aos empregados das sucursais internacionais da mídia (que vivem como cracas no queixo do tubarão). Aliás, exatamente como a igreja só rende mesmo aos pastores (e tanto mais quanto mais ruidosos e politiqueiros sejam e mais malas de dolares possam carregar para a Suíça).
Instalado como passatempo de sinhozinho, o futebol penetrou tanto no Brasil justamente porque, pouco a pouco, tornou-se um jeito de os pobres e a miserável classe média "agregarem valor". Valor aliás arrancado legitimamente de si mesmos (já que tinham e não tinham como sobreviver com um mercado interno tão escasso quanto o que havia no Brasil antes da década de 40).
Era como o carteado. Era como o jogo do bicho. O lugar em que cada pobre diabo "fazia sua fezinha" e às vezes tirava a sorte... média.
Com a modernização, desvalidos em escala mundial os principais valores cívicos que ratificavam o sentimento de pertencimento nacional, essa pré-história do futebol-macumbeiro-jogo-do-bicho-semi-marginal foi obliterada ao mesmo tempo que sua versão clean, espetacular, foi alçada ao estatuto de um verdadeiro cimento de sociabilidade imaginária.
Quer dizer, foi obliterada à despeito, é claro, de continuar acontecendo nos lugares em que a condição de vida é semelhante, sem os ganhos correspondentes...
Nada contra, não fosse o fato de a pelada do fim de semana não salvar mais ninguém da pobreza.
E isso é tão mais triste quando a gente percebe que seu lugar de providência foi tomado pelo terceiro setor e o narcotráfico, e o de despêndio, pelo crediário das Casas Bahia, o mais barulhento dos esfoladores.
5. O ebó moderno de Káká x a fúria independente do torcedor esclarecido
Dito isso, o que tem Kaká a ver com toda a historia?
Pois bem. Marcelinho carioca era crente, muitos jogadores são crentes. Mas quando Kaká - jogador branco, criado no São Paulo e parecido com o boneco Ken - acende uma vela para seja lá qual for sua igreja, ele está mexendo nas regras do futebol esclarecido. Não só nas do espetáculo maroto de todas as noites (cujo horário a Globo determina), como também nas da própria indústria futeboleira.
O caso não chega a ser grave, mas é suspeito. Ronaldinho, com suas noitadas transsex, provocou piadas, mas não conseguiu semelhante façanha.
Pois, diferentemente dele, Kaká não só se presta como imagem (ou "santinho") para um comercial da Nike, como também está trazendo para o seio do futebol contemporâneo uma prática escancaradamente arcaica, duvidosa.
Pra completar, se o país fosse o mesmo, alguns milhões de suas contas bancárias estariam - ou só na imaginação que condiciona e foi roubada dos torcedores estariam - tirando famílias da pobreza. Mas como a religião e o jogo populares já não têm o poder que tinham antigamente, quem leva seu bocado é uma outra indústria que não produz nada além de esperança para os pobres. Essa religião é que o assinante da Placar ataca. Primeiro, porque ela não rende nada a quem já anda a perigos. Segundo, porque a esquisitisse arcaica traz reminiscências da sobremesa cavada a gols pelos mais velhos...
Ora, o poder de choque disso só podia ser muito maior do que o da quebra de qualquer tabu sexual por um jogador excêntrico, já meio gordo e, ademais, menos branco.
Sim, o ebó moderno de Kaká é forte demais. Suas preces e seus milhões correndo para o bolso dos gangsters da salvação fazem com que o público pagante e assinante da ESPN torça o nariz. É o mínimo que o respeitável cidadão poderia fazer, vendo ali, bem diante dos seus olhos, além de uma versão amplificada dos seus sonhos frustrados de menino, aquilo que com muito custo foi reprimido pelos seus ascendentes justamente a fim de que, para seus filhos, o futebol pareça ser isso que parece ser hoje: uma diversão democrática e a laica.
O susto com as demonstrações públicas de fé, nem é preciso dizer, vêm para reprimir qualquer tipo de aproximação entre o passado do futebol e as teatralidades correlatas que os crentes pobres da Universal de Deus fazem em pequena e desesperançada escala.
Coerentemente, o ranço que recai contra Kaká é o ranço de gente que não gosta de ver um costume de pobre invadindo aquela que essa mesma gente cinicamente considera a mais democrática das diversões modernas. As caríssimas camisetas oficiais, o canal de assinatura com cobertura completa, as alas vips, as copas mundiais, bem como a discussão com peritos, existem exatamente para manter bem estabelecida a distância. Não é verdade?
6. K.O., W.O., W/Brasil
Faz sentido. Se o torcedor, hoje, sob a desculpa de cultivar um hábito querido, procura distintivos de classe que o comprovem como um torcedor mais competente, é justamente porque, tanto quanto os menos competentes, ele já não pode tirar a sorte miúda na "caixinha de surpresas". Nem daí, nem do truco,nem do poker, nem da cacheta, nem do bingo.
Em certo nível confuso de sabedoria, todo torcedor o admite. E enxerga no futebol uma dessas forças que magicamente fazem com que a violência instituída se justifique, para que lhe favoreça o livre usufruto do roubo coletivo e lhe pesem menos quaisquer desconfortos de consciência. Tomando a forma de jogo, isso não tem mal nenhum. Ali, em terreno sublimado, cada um pode dizer que quer mesmo é ver os outros chafurdarem na derrota, reservando a si as glórias de ser campeão. É assim que o futebol tem funcionado no Brasil, desde sempre.
O problema, no entanto, começa a aparecer quando a dificuldade de salvar-se da miséria se intensifica a tal ponto que já não se permite ao torcedor confiar apenas em seu amor pelo esporte. Ademais, esse, desde que a indústria fez do futebol um sítio de pequária intensiva, já não proporciona por si só grandes emoções. Ou então, a gente poderia dizer que os sufocos da situação de subemprego e desemprego superam-nas, obrigando o dito cujo a esforços de fanatismo displicente que nem mesmo seu avô compreenderia.
Consequentemente, o amante de futebol, em nome de manter acesa a chama, precisa cada vez mais recobrir-se da aura de exceção com que a propaganda reveste os craques de futebol. Assim, a contemplação imaginarimente participante do espetáculo (leia-se "consumo") torna-se tão mais imperiosa quanto mais seu subtexto obsceno ameaça romper à luz do dia. Justamente por isso é preciso relativizar e repropor o mito antigo, encurtar e ao mesmo tempo distender a distância entre a vida e o gramado; fazer com que cada um, conoisseur ou não, tome parte no campo, leve às ruas as cores do time amado. Esse é o trabalho realizado pelo merchandise, responsável por estender badulaques futebolísticos, sob preços diversos, até ao mais comum dos mortais.
E, ainda assim, quanto mais o torcedor compra gato por lebre, mais a imagem arrojada e bela do passado futebolístico reverte-se no seu contrário, fazendo com que seu caráter de luta por migalhas venha à tona. Em épocas em que o futebol não é uma histeria geral, pode-se, por exemplo, constatar que a preferência por adereços de futebol desponta no peito dos "manos" de cantões novo-ricos de São Paulo: o filho eternamente imaturo e dileto do dono da microempresa, com seu cabelo empastelado de gel, com seus cinco amigos arruaceiros em carro esporte filmado; com a namoradinha, passeando o cachorro enorme em agasalho de tactel. Ele, o contribuinte da caixinha mensal para o society. Ele, o fissurado nas tabelinhas. Ele, a caricatura de homem típico, que, aos domingos, quando não concede aos rapazes ou à família a alegria de sua presença contrariada, frustra a esposa, afundado no sofá para acompanhar quinze campeonatos internacionais simultaneamente (e ter o que falar durante o tempo da semana que não passa trabalhando ou embriagado).
Noutras palavras, a pletora das bandeiras recobre preferencialmente essa diversidade de lumpen-classe-média. Uma espécime, que, não por acaso, mantendo acesa a tradição guerreira, não esconde a disposição de ir às vias de fato nem mesmo quando fala, pois, recém-emerso do abismo, para não cair de novo, pratica a violência vulgar que nos demais toma a forma de assaltos ou de finas ironias. Só neles a camisa veste bem. Não no ricasso, que, dependo da ocasião, esconde estar à par dos resultados de jogos desde 1930. Não no moleque de rua, sobre cujo peito imprimiram um logo da Adidas já meio apagado.
Ora, exatamente por isso, têm razão os saudosos. A imagem do futebol como um todo evoca, não o mais cultuado atleta de todos os tempos, Pelé, mas sim a figura que constitui o maior pesadelo da tal ferina espécime: a dos desempregados que lotam as praças de subúrbio com suas velhas caixinhas de dominó - a inadequação da imagem residindo apenas no fato de que uns, cientes da própria situação, já perderam a voz e outros, na esperança de algum olheiro divino ou de ensurdecer o vizinho, ainda gritam.
7. Epílogo: olho no lance; amém, limália política.
Como se sabe, justificando o imobilismo social como ordem divina, o ascetismo como vida justa, a ignorância como espontaneidade, a contenção do desenolvimento técnico e científico como limite à soberba humana, a religião imiscuia-se à política na Europa, durante o Antigo Regime. O que concebemos hoje como política, portanto, só foi nascendo bem devagar, em meio a inúmeras conceções ao obscurantismo então dominante. Sabe-se também que foi a famigerada burguesia, enquanto classe, uma vez tendo conquistado o poderio econômico, que inventou a primeira estratégia de dominação política baseada no consenso consciente dos dominados: a democracia.
Já por aqui, a despeito de nunca ter havido idade média, e de terem-se constituído burguesia e democracia sui generi, a religião, longe de ser apenas uma protoforma reprimida de política, instalou-se definitivamente como sua prática complementar e estigmatizada, nunca sendo de todo combatida e alijada dos mecanismos de poder. Nessa dinâmica, ela funcionava (e ainda funciona, de maneira direta ou mediada, como no caso do futebol), tanto para suprir a profunda necessidade dos pobres e das classes médias de aderir automaticamente à situação e "se virarem" em seus termos, quanto à necessidade dos ricos de se beneficiarem com a reinvenção permanente do mesmo (tarefa que, frequentemente, não lhes cabe).
Enfim, se é verdade que as coisas têm mudado um pouco neste país, deveríamos também nos perguntar se o fato de a política, desde 2003, estar sendo pautada por demandas e fraseologia populares foi suficente para mudar o quadro geral. Afinal, se as necessidades dos de baixo estivessem sendo realmente provisionadas, então já não seria preciso cultivar, em escala geral, a uma fantasia compensatória, como o jogo e o futebol, certo?
Por mais que se diga o contrário, não é todo mundo se prontifica a lançar-se à competição e ao embrutecimento decorrente só por necessidade de sobrevivência ou possibilidade objetiva de ter sucesso. Mais do que isso: é preciso acreditar que o caminho intimamente escolhido seja desejável para cada um, embora conflituoso com o interesse geral e as partes de si que se deve reprimir para "vencer". Uma vez que jargão, ideologia e justificação de projetos governamentais não coincidem com a mudança efetiva da realidade, é preciso ainda manter intacta uma imagem de conciliação de classes substitutiva, encenada, idealizada. Especialmente quando tudo na vida cultural e política do país pega carona numa promiscuidade tão arriscada quanto eficiente do poder com a pobreza.
No entanto, quando a destruição das condições gerais da vida e a violência desatada são ratificadas pela escolha geral iludida com ganhos pessoais e algumas estatísticas, o aspecto irracional da empreitada fica patente. Como não poderia deixar de ser, da ordem do irracional é também a manifestação favorita da perpetuação do mesmo no Brasil. As esperanças, que eram, ao mesmo tempo, remediadas e frustradas no futebol de várzea antigo de fato sobrevivem na torcida pelo futebol high-performance, mas como um fantasma. E esse sim é que é o seu demoníaco sentido político, inseparável de seu obsceno (porque reprimido) conteúdo religioso .
Encantado com o jogo que já não tem nada de magia, desesperado com o risco de tornar-se um derrotado, é justamente a favor dos dribles que a vida dá na sua consciência de cidadão abandonado e de peça sem valor no mercado de trabalho que o torcedor ainda grita "gol".
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